button titlesMINHA VIDA

N. 1

2019: Caxumba e Redenção

Eu queria continuar crescendo na minha carreira, mas jamais mudar como pessoa. A minha essência e a minha raíz continuarão pra sempre as mesmas. A gente precisa amadurecer, ganhar experiência e entender melhor o mundo, até mudar a forma com que vemos algumas coisas, mas jamais deixar de ser quem somos. Isso sempre esteve bem claro na minha cabeça.


E eu acredito que, neste último ano, especialmente com as minhas convocações para a seleção e minha vinda para o Everton, aprendi bastante e me tornei um jogador melhor. O primeiro semestre de 2019 foi especial. Se no ano passado, após um ótimo início no Watford, meu rendimento caiu consideravelmente por motivos que já comentei anteriormente, dessa vez eu continuei na pegada e não deixei o ritmo cair. Terminei a Premier League com 13 gols – fora um que ainda me tiraram, contra o Burnley, né, dona Premier League? 


Mesmo assim, minha temporada pelo Everton, individualmente, foi bastante proveitosa. Infelizmente, não conseguimos a posição que esperávamos no campeonato. Terminamos em oitavo, a apenas três pontos da classificação para a Europa League, que era o nosso grande objetivo. Apesar disso, conseguimos incomodar bastante o ‘Big Six’. Nosso grande rival da cidade perdeu o título por um ponto apenas, e nós tiramos pontos deles no confronto direto. Ainda batemos Chelsea, Leicester, Arsenal e Manchester – por 4 a 0 – quando fiz um dos gols mais bonitos da minha carreira.


Nesse meio tempo, ainda fiz dois amistosos pela Seleção, em março, mas o que todos os jogadores que estavam fazendo parte daquele ciclo era a Copa América. Estava com muita expectativa de ser chamado e assim voltei ao Brasil e a Nova Venécia, onde fui aproveitar meus primeiros dias de descanso.


Todos acham que nós somos avisados da convocação antes de todo mundo saber, mas não é assim. Não mesmo. Caso contrário, eu seria a pessoa mais tranquila do mundo naquele dia 17 de maio, exatamente uma semana após meu aniversário de 22 anos. Eu me lembro que a Globo mandou o Régis Rösing para fazer uma matéria sobre a minha convocação, e aquilo me deixou ainda mais apreensivo. E se o cara não me chama?


Todo mundo podia estar com um pouco de ansiedade, mas eu tenho certeza de que era o mais tenso naquela sala. O professor Tite começou a chamar os jogadores e nada de falar meu nome. Quis o destino que, por conta da ordem alfabética, eu fosse o último. Mas nem esperei ele falar o meu nome inteiro e comemorei como se fosse um gol. Talvez o mais importante da minha carreira até ali. 


A sala estava cheia de gente: minha família, amigos, meu empresário, meu assessor de imprensa e os repórteres que foram acompanhar aquele momento. E que bom que gravaram aquele momento. Aquelas imagens acabaram rodando o mundo e a emoção que senti naquela hora não foi apenas de um cara se realizando na profissão, mas de um garoto realizando um sonho de criança.


E assim fui para viver minha maior história no futebol até hoje. A Copa América é um torneio muito importante para a seleção. Apesar de ser a maior campeã mundial da história do futebol, ainda perdemos em títulos continentais para o Uruguai e para a Argentina. Apesar disso, tínhamos a responsabilidade de manter um tabu: o Brasil sempre foi campeão jogando em casa. E essa era a nossa chance de fazer história novamente, e trazer um título que a seleção não ganhava desde 2007.


Ainda na preparação, perdemos o Neymar por lesão no jogo contra o Catar. Ainda me lembro que a minha alegria por ter feito um gol contrastou bastante com a dor que ele sentiu por ser cortado. Todos ficamos muito tristes, mas acredito que aquilo nos uniu ainda mais. Ainda goleamos Honduras, fiz mais um, e partimos para a competição.


E nós começamos muito bem: vencemos a Bolívia no Morumbi por 3 a 0. Eu fiz a jogada que terminou no pênalti do nosso primeiro gol e o lance do segundo gol também começou comigo. Na partida seguinte, contra  Venezuela, não consegui fazer um jogo muito bom e o Tite me tirou no intervalo para colocar o Éverton Cebolinha, que também tinha entrado bem no jogo anterior – e ali acabei perdendo a posição. No jogo contra o Peru, nosso time goleou, mas eu fiquei o tempo todo no banco.


Na preparação da partida contra o Paraguai, pelas quartas-de-final, veio meu grande baque. Senti que tinha algo de estranho no meu pescoço num dia pela manhã. Logo procurei os médicos da seleção e comentei com eles que estava com aquilo. Daí em diante a história só fica pior. Fiz um exame naquele mesmo dia que constatou que eu estava com caxumba.


Naquele momento, me disseram que o tempo estimado para recuperação era de cerca de 15 dias e me desesperei, porque faltava pouco mais de uma semana pra terminar a Copa América. Fiquei em isolamento, não podia ter contato com ninguém. Todo dia ia até o espelho para ver se o pescoço tinha desinchado. Enquanto o pessoal foi pra Belo Horizonte para o jogo contra a Argentina, eu estava trancado no hotel em Porto Alegre.


Mas o que a caxumba não contava é que Papai do Céu sempre foi bom demais comigo. Todo mundo achava que eu não voltaria mais para o torneio, mas eu ainda não tinha desistido. Em cinco dias, eu me recuperei e viajei para Minas Gerais. Se não estavam contando comigo nem para uma possível final ou disputa de terceiro lugar, eu fiquei disponível para a semi, diante da Argentina, e como é bom ganhar deles. Eu não entrei em campo, mas cada gol do Brasil foi como se fossem meus.


E então veio o meu momento mais sublime no futebol até hoje. A final era contra o Peru, no Maracanã, onde vivi tantos bons momentos com o Fluminense. A gente começou bem, mas o Guerrero fez de pênalti e terminamos o primeiro tempo vencendo por 2 a 1. No segundo tempo, a coisa complicou um pouco e é muito ruim ver tudo de fora. Queria entrar e ajudar meus companheiros. 


No aquecimento eu falei para o Miranda que iria entrar e fazer o gol do título. Então o professor Tite me chamou e fui correndo. Enquanto ele me passava as instruções e eu já aguardava para entrar, o Gabriel Jesus foi expulso e pensei que ele não fosse mais fazer a substituição, mas ele confiou que eu poderia ajudar e manteve. 


Eu entrei, tentei segurar um pouco mais a bola lá no ataque, até que o Cebolinha sofreu o pênalti. Eu peguei a bola e pedi ao Dani Alves, que era o batedor, para bater. Disse que estava confiante e que ia fazer. Ele disse era pra eu bater igual estava fazendo nos treinos e assim eu fiz. 


Aqueles milésimos de segundo até a bola beijar a bochecha da rede foram os mais especiais da minha carreira até hoje. O Maracanã veio abaixo, o nosso título estava confirmado. Eu comemorei tirando a camisa e jogando pro alto em homenagem ao Adriano Imperador, que fez isso na final contra a Argentina em 2004. Vencemos, e eu venci duas vezes: a Copa América e a caxumba.
Obs: Desculpa, Vó Julita. Eu nunca mais vou me esquecer do seu nome!


Depois de realizar mais este sonho e, além de disputar uma competição com a seleção, também ganhar meu título de maior expressão, fui ao programa do Galvão Bueno e, alguns dias depois, recebi a Comenda José de Anchieta Fontana, da Assembleia Legislativa do Espírito Santo, que é a maior honraria que um atleta do estado pode conquistar. Lá eu tive uns minutos pra poder falar e pedi para os deputados, e depois para o governador, para investirem em educação e saúde, especialmente para as crianças.


No semana seguinte estava agendado o jogo beneficente na minha cidade, e pude voltar pra lá e participar novamente daquela festa. Foi muito legal mais uma vez poder estar com o meu povo, arrecadar alimentos e poder ajudar. Por lá eu recebi uma homenagem do Instituto Federal de Educação, por ter ajudado alguns alunos a participarem da Olimpíada de Matemática lá no Taiwan. Os caras são gênios, eu admiro muito a capacidade deles. Por isso, sempre que eu puder, vou ajudar mesmo.


Dali em diante, tirei alguns dias de férias e aproveitei para recarregar as baterias para a temporada que estava prestes a começar. Meus companheiros voltaram antes para a pré-temporada, eu tive alguns dias a mais por conta da seleção, mas queria chegar bem e assim aconteceu.


 Àquela altura, já estava muito à vontade no Everton. Meu primeiro ano foi muito bom, já havia me entrosado com meus companheiros e queria muito ter uma temporada ainda melhor do que a anterior. E comecei bem: na primeira metade do campeonato, marquei oito gols. Tive uma sequência de três gols em três partidas contra Liverpool, Chelsea e Leicester. Apesar disso, nossos resultados não eram bons e, mais uma vez, a pressão recaiu em cima do treinador. O Marco Silva saiu e, mais uma vez, me ressenti por não ter podido ajudá-lo mais.


Entrou, interinamente o Duncan Ferguson, que já estava na comissão técnica, faz parte do nosso dia-a-dia e conhece muito bem os jogadores. Fiz bons jogos com ele no comando. É um cara que foi da minha posição e me ajudou bastante, me deu muita moral.
Logo depois, o clube anunciou um dos maiores treinadores da história. Um cara que já comandou jogadores como Ronaldo, Kaká e vários outros craques. Ele estreou aqui no “Boxing Day” e vencemos bem os dois últimos jogos da temporada.


Pela Seleção, fizemos mais seis amistosos depois da Copa América, mas não repetimos o mesmo desempenho da nossa conquista. Espero que o próximo ano possa ser ainda melhor, repleto de conquistas, tanto no meu clube, quanto na Seleção, já que temos Eliminatórias e mais uma Copa América pela frente.
 

2019: Caxumba e Redenção

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